Com o olhar sensível do diretor Walter Salles – um breve reencontro com Fernanda Montenegro – e a interpretação hipnotizante de Fernanda Torres, se junta à lista de filmes brasileiros que marcam gerações, como “Central do Brasil” (1998) e “Cidade de Deus” (2002).
Depois do prêmio de melhor roteiro no Festival de Veneza, diversos elogios da imprensa estrangeira, e algumas exibições disputadas na Mostra de SP, a obra estreia no país em 7 de novembro como a maior chance de indicação nacional ao Oscar em mais de duas décadas.
Assista ao trailer de ‘Ainda Estou Aqui’
Uma história resumida
É possível resumir o filme como a história da mãe do escritor, Eunice Paiva (Torres), uma dona de casa de uma família influente que é obrigada a se reinventar após o assassinato de seu marido pela ditadura militar nos anos 1970.
Sinopses são inevitavelmente reducionistas, mas essa parece ainda mais do que o normal. “Ainda estou aqui”, divido pelo desaparecimento do ex-deputado federal Rubens Paiva (Selton Mello), vai muito além.
A primeira metade é o retrato ensolarado de um casal apaixonado e seus cinco filhos, com uma bela casa na beira da praia no Rio de Janeiro.
Na segunda, cortinas se fecham e o lar se esvazia com a ausência de Rubens – e a interpretação imensa de Torres preenche esse espaço com o propósito furioso porém contido de uma mãe que se recusava a chorar na frente dos filhos.
Selton Mello e Fernanda Torres em cena de ‘Ainda estou aqui’
Divulgação
Mulheres notáveis
Salles não precisa mostrar os horrores aos quais o engenheiro foi submetido até sua morte. O desespero da família com a falta de respostas e a absoluta falta de decência e respeito do regime estampadas na tela são mais do que suficientes para mostrar os perigos do fascismo e calar – com algum otimismo – aqueles que pedem o retorno de uma ditadura.
A sensibilidade do cineasta e dos roteiristas, Murilo Hauser e Heitor Lorega, impedem que o alerta soe enfadonho. Mesmo assim, o projeto não seria nada sem essas duas mulheres notáveis.
A história de Eunice – que se torna uma das ativistas de Direitos Humanos mais importantes do país após voltar à faculdade com mais de 40 anos, ao mesmo tempo em que luta para que militares reconheçam o que fizeram com seu marido – sempre daria um grande filme.
Mas Torres eleva sua interpretação à altura da retratada e, com isso, alça a obra a patamares ainda mais altos. Com elas, Salles, o roteiro sem gorduras e um elenco dos mais competentes, “Ainda estou aqui” é muito mais do que a soma de suas partes – uma espécie de progressão geométrica da qualidade.
‘Guilherme Silveira, Selton Mello, Cora Ramalho e Fernanda Torres em cena de ‘Ainda Estou Aqui’
Divulgação
E Fernandona?
Todo mundo vai encontrar algo com que se identificar e se relacionar em “Ainda estou aqui”. Quando a trama avança, é difícil segurar as lágrimas diante da felicidade absurda da protagonista que se recusa a não sorrir, a deixar que tomem sua dignidade.
A vitória simbólica sofre contraste ainda maior com a cena final, na qual Montenegro toma o papel da filha. A atriz veterana prova em poucos minutos porque é a maior que temos, sem falas e um olhar perdido por causa do Alzheimer.
A forma de Eunice a essa altura pode ser muito diferente da mulher esbelta e elegantes do começo do filme, mas o filme mostra que sua situação é a mesma, cercada pelo amor dos familiares como as primeiras cenas – mesmo que a memória não registre mais.
Cartela resenha crítica g1
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