Chappell Roan era um nome relativamente desconhecido no início de 2024. Quase um ano depois, a cantora passou a ter mais de 41 milhões de ouvintes mensais no Spotify – e é considerada a maior revelação do pop em muito tempo.
Se a ascensão dela à fama pareceu abrupta para o mundo da música, para Chappell, foi ainda mais difícil de compreender. Com a exposição, a artista decidiu impor limites na relação com os fãs, e movimentou uma nova discussão na mídia internacional. Entenda como Chappell Roan pode representar uma mudança na indústria pop:
Os ‘ensinamentos’ de Chappell Roan para a relação entre fã e artista
Reprodução
Quem é Chappell Roan?
Nascida em Willard, no estado do Missouri, Kayleigh Rose Amstutz tem 26 anos. Ela adotou o nome de Chappell Roan como sua alcunha artística – sua versão “drag queen”.
ENTREVISTA: Chappell fala ao g1
Ela investe na carreira musical há anos, chegou a perder o contrato com a gravadora e quase desistiu do sonho de ser artista. Mas em 2023, Chappell fez uma nova aposta e lançou seu primeiro álbum, “The Rise and Fall of a Midwest Princess”.
Chappell Roan
Reprodução/ Facebook da artista
Neste ano, a virada veio com força. Desde que a cantora se apresentou em festivais como o Coachella e abriu a turnê de Olivia Rodrigo, seus números mudaram drasticamente. Em junho, ela passou a ganhar entre 100 e 200 mil novos ouvintes por dia no Spotify.
Essa ascensão foi atípica, mesmo para artistas pop na era da internet. Chappell teve ganhou fama de forma muito brusca e exponencial, como não se via há anos na indústria, e não teve tempo para se adaptar a essa nova realidade. Paradoxalmente, ela recebeu mais atenção justamente pela forma que respondeu a isso: com uma postura diferente de muitas celebridades, ela se recusou a entrar na fama às custas de sua vida pessoal.
‘Não é normal’
Em agosto, Chappell publicou uma série de vídeos nas redes sociais em tom de desabafo. “Eu não quero o que diabos você acha que tem direito sempre que vê uma celebridade. Eu não dou a mínima se você acha que é egoísmo da minha parte dizer não para uma foto ou para seu tempo ou para um abraço. Isso não é normal”, disse.
“Não ligo se esse tipo louco de comportamento vem junto com o trabalho, a área de carreira que escolhi. Isso não o torna OK. Isso não significa que eu o queira, isso não significa que eu goste”, completou.
Chappell Roan no VMA 2024
Charles Sykes/Invision/AP
A intenção de Chappell foi falar de um caso próprio, mas a cantora acabou pautando uma dicussão mais ampla. “Chappell Roan e seus fãs podem mudar a cultura de fãs tóxicos e celebridades para sempre”, escreveu a Teen Vogue. “As estrelas pop estão chamando a atenção de fãs ‘bizarros’. Já era hora”, apontou o Business Insider.
Além disso, o tópico era uma espécie de tabu entre as celebridades, já que a convenção “velada” é de que um artista deve aceitar e ser grato pelos seus fãs incondicionalmente. Mas após Chappell, celebridades passaram a se posicionar a favor de alguns limites.
“Isso acontece com todas as mulheres que conheço desse negócio, inclusive eu. As mídias sociais pioraram isso. Sou muito grata que Chappell esteja disposta a abordar isso de uma forma real, em tempo real. É corajoso e infelizmente necessário”, comentou a cantora Hayley Williams.
“‘Limites’ não é uma palavra que nós, da Geração X, fomos ensinados. É algo muito importante para desenvolver em sua própria vida. Mas todo ser humano andando por aí com uma câmera no bolso, isso não ajudou nos limites”, disse a atriz Maya Rudolph à “Variety”.
Fã pode tudo?
Shawn Mendes é cercado por fãs na praia de Ipanema.
JC Pereira/Agnews
Para a professora e pesquisadora de fandoms Aianne Amado, a parte prejudicial (e por vezes, fatal) da fama é um tópico antigo, incluindo casos como John Lennon e Marilyn Monroe. Mas ela acredita que nos últimos anos, “especialmente a partir do escândalo do #FreeBritney, essa questão tem, finalmente, ganhado a relevância que merece”.
Mas se por um lado, a discussão passou a ficar mais presente, por outro, ela também ficou mais complexa. Com as redes sociais, artistas passaram a coexistir com seus fãs em uma mesma linha do tempo, e se tornou praticamente impossível distinguir as esferas pessoais e profissionais.
Isso se intensificou graças à influência de nomes como Taylor Swift, que construíram um nome ao borrar a fronteira entre vida e carreira.
“Ao contrário de Roan, existem artistas como Taylor, que gostam da proximidade e incentivam a ideia de amizade entre artista e audiência. E, estando na posição em que ela se encontra atualmente na indústria, acredito que muitos fãs passam a usá-la como paradigma de como o ídolo deve ser e como essa relação deve ser estabelecida”, afirma Aianne.
O problema é que esse sentimento que os fãs criam por um ídolo, sobretudo aquele que se expõe muito nas redes ou em suas letras, é de uma natureza totalitária e platônica – sem limites, aponta a psicanalista Cínthia Demaria.
“O sujeito, ídolo, assume um lugar de objeto para o outro [público], e o outro se vê no lugar de poder devastá-lo, consumir e devastar essa imagem a todo custo. Como a gente vê com outros personagens da mídia, da música, que se tornaram objetos da indústria cultural – como Amy Winehouse, Kurt Cobain, etc. A perda da privacidade coloca essas pessoas sujeitas à superexposição”.
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Reprodução/Twitter
A psicanalista acredita que as redes sociais intensificaram e centralizaram essa exposição. Graças à internet, o público (tanto fãs, quanto haters) passou a ter a sensação de que é permitido fazer e falar de tudo com uma celebridade.
“No caso de um desconhecido ou alguém que você tem laços, você não coloca tudo a perder [em uma interação]. No amor platônico com o ídolo, você não tem nada a perder. E isso te autoriza a ultrapassar um limite. E com um artista, você fala o que quiser, faz o que quiser, e acredita que não vai ser penalizado”.
Aianne acrescenta que a relação de idolatria “ainda é unidirecional”, mas parece mais recíproca para o fã. “O ídolo não tem ideia ou ação sobre o fã individualmente, porém o fã passa a ter acesso ao seu íntimo, sua rotina (muitas vezes demonstradas pela própria celebridade, em um story gravado olhando para a tela, ainda de pijama no seu quarto). Isso aumenta o senso de proximidade que o fã sente”.
Uma mudança na indústria?
Chappell já se tornou famosa com as redes sociais e após uma série de acontecimentos centrais na indústria, incluindo a exposição do caso Britney Spears. E assim, a jovem cantora preferiu bancar a imagem de “chata” e “difícil” que se permitir passar pelo escrutínio midiático.
“Não concordo com a noção de que devo uma troca mútua de energia, tempo ou atenção a pessoas que não conheço, não confio ou que me assustam — só porque estão expressando admiração. As mulheres não lhe devem uma razão pela qual não querem ser tocadas ou conversadas”, disse Chappell em um de seus vídeos.
Chappell Roan
Reprodução/Instagram
Para Aianne, Chappell representa uma geração de artistas adepta a discussões de saúde mental e do direito da mulher sobre seu próprio corpo. E por isso, “vai contra a maioria ao prezar pela separação entre sua persona artística e sua persona no dia a dia, com família e amigos”.
Cínthia acredita que a posição da artista pode frustrar o público por ir contra o “amor totalitário” dos fãs, que não compreende limites. “Quando a gente idolatra alguém platonicamente, ela não tem defeito. Mas o encontro real, quando esse amor platônico é furado, ele vai ser sempre frustrante. A pessoa é um sujeito, não tá à disposição o tempo inteiro. O que Chappell faz nessa posição é muitas vezes de frustrar essa expectativa, que ela não vai aceitar ser amada e devastada sem consequências”, explica.
E será que essa posição dela pode causar uma mudança real na indústria? Para Aianne, a resposta tem indicado caminhos positivos. “Por muitos anos, o mercado acatou essa visão e exigia uma postura complacente das celebridades, o que só reforçava esse pensamento. Mas esse discurso vai ao encontro da marca que ela (em sua personagem) estabeleceu com o público, e se trata de um debate caro à geração que a acompanha”.
Mas Cínthia acredita que uma mudança na relação entre fãs e artistas não é tão simples. “Nada justifica uma pessoa pública ser atacada, assediada. É muito importante isso ser levantado, mas não exime Chappell dessa idolatria. E como a idolatria é um amor totalitário, ele não tem garantias. A gente sabe o que fala, mas não sabe o que o outro ouve. Então, um espaço precisa ser criado [pelo artista], de uma privacidade, já que se perde a privacidade com a fama”.

